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Professora especialista em alunos com deficiência fala sobre aulas na quarentena

Soraya Rosa, que trabalha com inclusão e Educação Física há 30 anos, reinventou-se durante aulas a distância

Natural de Belo Horizonte e moradora do Rio de Janeiro desde criança, Soraya Rosa completa 30 anos como professora de Educação Física em 2020. Ela (e ninguém) poderia imaginar que essa data especial seria totalmente impactada pela pandemia do coronavírus. Soraya, especialista na inclusão de alunos com deficiência por meio da atividade física, foi obrigada a se reinventar durante os últimos meses.

O Impulsiona conversou com a professora para entender quais são as ideias que têm dado certo durante a quarentena. Para conferir mais dicas de atividades, assista ao webinário sobre inclusão, que contou com a participação da Soraya. Clique AQUI para ver na íntegra.

Como você começou a trabalhar com inclusão?

R: Olha, eu costumo dizer que não escolhi a inclusão, ela que me escolheu. Meu primeiro estágio quando estava na faculdade de Educação Física foi em uma escolinha de basquete no Maracanãzinho. Lá, conheci o Carlão, um adolescente de 15 anos com deficiência intelectual. O técnico principal, Zé Duarte Ferraz, me orientou desde o começo a tratar o Carlão de forma cuidadosa, mas cobrando bastante e sem “passar a mão na cabeça”.

Um episódio nessa época me marcou. O Carlão não conseguia entender a regra dos 3 segundos no garrafão, e eu sempre apitava, apitava, apitava.. os colegas tentavam ajudar, mas não adiantava.

No meu último dia de estágio, fizemos uma festa de despedida. O Carlão segurou a minha mão e falou “nunca mais vou esquecer os 3 segundos”. Eu não conseguia parar de chorar. Ali, percebi que precisava olhar para o POTENCIAL, e não a deficiência dos jovens.


Desde então, você procurou se especializar na área da inclusão?

R: Pois é… o que começou como acaso acabou virando paixão. Depois de trabalhar em algumas escolas com alunos deficientes, senti necessidade de estudar mais a respeito. Se hoje em dia ainda falta orientação para os professores, imagina lá atrás, na década de 80, 90…

Em 1994 fiz a minha primeira pós em Psicomotrocidade. Foi interessante porque eu dava aula de karatê, sou faixa preta. E aí recebi um aluno paralisado cerebral que não ficava em pé direito, abria a perna e caía… Um dia ele deu um soco em um colega e eu, com apoio dos responsáveis, deixei ele de castigo por uma semana. Ele voltou com os pais, pediu desculpas, disse que nunca mais faria de novo. Avançamos nas aulas e um tempo depois ele já chutava com uma das pernas. Escrevi meu TCC sobre esse caso. Mostra bem como o esporte pode ajudar na inclusão, mas que os alunos com deficiência também precisam ser cobrados e desafiados a darem o máximo.

Depois eu fiz outra pós em Psicopedagogia, estudando as diferenças de aprendizagem em cada deficiência.


Hoje em dia, o que você está fazendo?

Estou terminando uma pós em TEA (transtorno de espectro autista) e dando aula de Educação Física em duas escolas. Uma é regular, com alunos incluídos, e outra especial.

Temos deficiências de todos os tipos: cegos, cadeirantes, classes de autismo, transtornos dos mais brandos aos mais severos. Posso dizer com certeza: é isso que eu amo fazer.


Eu sei que nas aulas presenciais você acompanha o desenvolvimento de perto, cuida de cada caso… como estão sendo as aulas a distância?

Olha, não é fácil. Primeiro, preciso esclarecer que o meu foco com os alunos com deficiência na pandemia não é fazer eles se movimentarem na mesma intensidade das aulas presenciais, mas sim cuidar do EMOCIONAL. Muitos deles não entendem por que precisam ficar trancados em casa, por que não podem ir para a escola e ver os amigos…

Então eu tenho buscado alternativas para atividades físicas, mas me preocupado muito em MANTER OS LAÇOS AFETIVOS.


Pode dar algum exemplo de atividade?

Claro. A primeira recomendação que eu tenho é que os professores APAREÇAM para os alunos. No começo, eu estava buscando muita inspiração na internet e compartilhando PDFs, vídeos, etc… isso é maravilhoso, tem muita riqueza de conteúdos disponíveis. Mas, depois da sugestão da direção da escola, eu percebi que os alunos respondem mais quando sou EU aparecendo no vídeo. Então eu me inspiro em vários materiais que vejo por aí, e depois coloco do meu jeito, com a linguagem que eles já estão acostumados.

A segunda dica é pensar sempre em adaptação. Tudo que eu mando por texto, mando também em áudio para os alunos cegos ou com dificuldade de leitura. E também penso na questão do movimento dos cadeirantes.

Outro exemplo: tem um jogo para os mais novos que quando eu falo A, eles precisam pular para a frente, B para trás, etc. Pensando que tenho alunos cadeirantes, todo movimento que eu proponho também é possível de fazer com a cadeira de rodas. Seja se movimentando para os lados ou mexendo braços, pescoço, cabeça… E quando eu for propor algo com bola, pode ser substituído por uma almofada para facilitar o manuseio dos alunos com deficiência.

Outra coisa que tem dado certo é a gamificação, ou seja, criar algum tipo de competição com você mesmo. Tenho enviado desafios semanalmente, porque retomam aquele espírito da quadra para os alunos. Por exemplo: tenho uma aula “do barulho”. Eu gravo as músicas que fazemos na aula com um instrumento improvisado, tipo uma colher de pau e uma panela, e eles repetem em casa, gravam e me enviam. Trabalhamos ritmo e dança.


E todos participam?

R: Não podemos mentir, nem todos. Alguns por dificuldades familiares, ou de acesso à tecnologia… Eu continuo fazendo o meu melhor, inventando cada aula, tentando adaptar e incluir o máximo possível de alunos.

Acredito muito que a atividade física pode dar PERSPECTIVA DE VIDA para esses jovens com deficiência, e por isso enxergo sempre o copo meio cheio.

Quer ver mais ideias de atividades inclusivas para a quarentena? Assista ao webinário do Impulsiona. Clique AQUI!

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Claudivino Thomaz Angelo Angelo
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Claudivino Thomaz Angelo Angelo

Então a maior dificuldade e ter conteúdos ou trabalhar nessas aulas online atingindo os alunos e os com deficiência (PCDs) ao mesmo tempo pois na maioria das turmas tem PCD.

Léia Mendes Pereira
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Léia Mendes Pereira

Saudades das minhas aulas , e do contato com as crianças, é isso mesmo Professora concordo plenamente estamos nos reinventando!!! Adorei