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Professor de Educação Física conta como está sendo o retorno das aulas presenciais

Alexandre Santana, da rede particular do Rio de Janeiro, encara o desafio de ensinar atividades físicas em meio aos protocolos de saúde

Muitos estados brasileiros estão retornando com as aulas presenciais, principalmente na rede particular. No Rio de Janeiro, Alexandre Santana é um dos professores que voltou a frequentar a escola.

Dos seus 55 anos de idade, já são mais de 30 dedicados à Educação Física. Conversamos com Alexandre sobre o desafio de dar aulas práticas respeitando os protocolos de saúde. Confira abaixo a entrevista. Inscreva-se também no webinário certificado do Impulsiona sobre “Educação Física na volta às aulas” clicando AQUI!

Em quais segmentos você trabalha? E como eram as suas aulas pré-pandemia?

Trabalho do berçário ao Ensino Médio. São várias metodologias. Muita música e dança para os pequenos, atividades lúdicas… No Fundamental I começamos com jogos e brincadeiras mais complexos, trabalhamos bastante socialização. E no Fundamental II e Ensino Médio a abordagem é mais esportiva e de preparação para o ENEM.

Quando foi anunciado o fechamento das escolas, como você reagiu?

Olha, me falaram: vai logo na escola buscar o material para ensinar de casa. Mas eu pensei: se meus alunos não têm bambolês, cones ou petecas em casa, então não adianta usar isso nos vídeos. Mesmo tendo o privilégio de uma ótima estrutura na escola, recorri a materiais recicláveis e fáceis de encontrar em casa.

E foi fácil gravar os vídeos logo de cara?

Se você assistisse aos bastidores, nem faria essa pergunta (risos). Eram quatro pufes, um em cima do outro, com o laptop ou o celular equilibrado no topo. Depois é que eu arranjei um tripé e fui evoluindo.

Mas não sou blogueiro, não gosto de aparecer muito. Então coloco todos os vídeos como “não listados” no YouTube, e só assiste quem está no Google Classroom com o link.

A reação das crianças nas aulas online foi boa?

Olha, a gente vai aprendendo junto… É difícil manter a atenção deles por mais de 20 minutos com o celular do lado ou outras abas abertas. Fui encontrando algumas estratégias.

Com os mais novos, as músicas fizeram muito sucesso e o apoio dos pais foi fundamental.

Com os mais velhos, combinei o seguinte: vamos trabalhar condicionamento físico e meditação. Mas o diferencial é que eles criam a playlist, desde que no final tenham músicas suaves para meditar. A carga das outras disciplinas está muito pesada, então criamos uma válvula de escape.

Eles abrem a câmera? (risos)

Quem dera! Adolescente não gosta de se ver, tem muitas questões de mudança do corpo, autoestima e autoconfiança. A gente tenta incentivar, até prometo chocolate para quem abrir a câmera! rsrs

Agora vamos falar de aulas híbridas, do retorno presencial. Você voltou em meados de outubro. O que percebeu nos alunos?

Bom, primeiro é gritante a falta de condicionamento físico. As crianças estão subindo a escada e chegando esbaforidas.

Então decidi começar com calma, de forma lúdica, com uma escada de funcional no chão da sala. Distância de um metro e no máximo 10 alunos se revezando.

Quem estava em casa marcava a escada com chinelo, almofada, o que tivesse.

 

E essa questão de dar aula presencial e transmitir ao vivo funcionou?

Olha, eu tenho privilégio de trabalhar em uma escola particular com ótima estrutura. Sei que essa não é a realidade da maioria das escolas brasileiras.

Mesmo assim estamos diante de novos desafios. Por exemplo, é curioso ver que os responsáveis dos alunos presentes na escola entram no link da aula online para checar como estão as coisas e verificar se as medidas de segurança estão sendo respeitadas.

E quanto a isso, os alunos estão seguindo os protocolos?

Precisamos estar sempre de olho. Eles estão loucos de saudade, é natural. Então é muito trabalhoso segurar para não se agarrarem, abraçarem…

Outro dia botei o celular em cima da mesa e o aluno pegou. Tenho que constantemente repetir que não pode pegar objetos de outra pessoa, não pode encostar no computador, tem que usar álcool gel…

Um outro problema é o uso de máscaras durante as atividades. Qualquer pessoa que já tenha praticado exercícios físicos de máscara sabe como é mais difícil respirar.

Muitos alunos estão indo para a escola?

Por enquanto são poucos no fundamental, e no Ensino Médio eles combinaram de não voltar ainda.

Aliás, é bom lembrar de outro desafio que os professores que derem aulas híbridas vão enfrentar: os alunos que estiverem na escola vão demorar mais tempo para cumprirem as atividades porque precisam revezar o espaço e manter distância, enquanto os de casa fazem rapidamente. A questão do planejamento do tempo na aula tem sido complexa.

Alguma mensagem final sobre esses 15 dias de aprendizado?

Primeiro, parabenizo os professores de escolas públicas que enfrentam mais dificuldades ainda pela falta de recursos e têm se reinventado muito.

Estamos vivendo um dia de cada vez. O superpoder do professor é a criatividade. Fico muito feliz em ver os colegas compartilhando ideias e vídeos. Como diz Cora Coralina, “feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina”.

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Matheus
Visitante
Matheus

Com calcalhar elevado vão se maxucar!

Rose calejon
Visitante
Rose calejon

Eu gostei muito da ideia.
E gostaria que vc me ajudasse com mais ideias para planos de aulas
Preciso voltar também,e estou sem saber como encarar isso

Iara Cruz
Membro
Iara Cruz

Parabéns professor por estar vencendo esse desafio. Quando se tem estrutura já é meio caminho andado. A jornada é longa mas a força de vontade nos leva a superar a cada dia os desafios que temos que enfrentar.

Danilo Dias Pillar
Visitante
Danilo Dias Pillar

Excelente relato, os professores se reinventaram nessa pandemia. Parabéns pela entrevista. Um forte abraço.

Glaer
Visitante
Glaer

Parabéns! Parabéns! Professor íntegro. O quê é preciso focar: Não havíamos passado por experiência semelhante, pelo menos nos meus 55 anos e acredito, que as gerações sucessivas, da mesma forma. O mais importante é o retorno das atividades nas escolas. A Criança observa as atividades ao seu redor funcionando, eles brincando na rua? Fica uma lacuna grandiosa, por isso, te parabenizo Professor, por sua contribuição íntegra e ética. Com certeza irei acompanhar o teu trabalho. Um afetuoso abraço!

Amauri Santana
Visitante
Amauri Santana

Muito boa essa entrevista, é importante receber o feedback de um professor que está vivendo na prática esta nova situação.

Francielly
Visitante
Francielly

Que legal esse relato!